A CERTEZA EM NOSSOS CORAÇÕES

Olá, estranho semelhante!

Escrevo-lhe este texto porque, talvez, nossas dores sejam as mesmas (e é provável que sejam). Antes de tudo, gostaria de lhe contar, de forma breve, uma história que vi nos evangelhos.

Diz respeito a um certo pescador de peixes, chamado Pedro, que recebera um convite do próprio Deus encarnado para se tornar pescador de homens. Claro que ele largou tudo e se pôs atrás do Mestre. Passou bastante tempo com Jesus alimentando-se de suas palavras, e ouviu coisas que o fez ter certeza de que seu lugar era ao lado do Mestre para servi-lo e honrá-lo.

Pedro queria viver do que o Mestre podia lhe entregar. E certa noite, quando estava no mar com seus amigos, no meio de uma tempestade, viu Jesus andando numa boa sobre as águas. Então, Pedro quis entrar na onda também. Quis provar desse poder do Senhor Jesus que olha para as falhas e limitações humanas e diz: Mas, em mim, você pode. Então, Pedro pediu para que Jesus fizesse ele andar sobre as águas também. E ele foi. Indo e indo. Até que ele perdeu o foco. Aquelas ondas, aquele vento… Pedro parou de olhar para quem governava tudo e começou a olhar para o quão pequeno ele sentia diante daquela tempestade. E, então, ele afundou. Mas, Jesus, por ser misericordioso, foi lá e puxou Pedro pela mão (não, sem dar uma pequena bronca nele pela pequenez de sua fé).

Um tempo depois, Pedro ao responder uma pergunta, aparentemente simples, de Jesus, recebeu, em contrapartida, uma promessa gloriosa. O Mestre havia perguntado aos seus discípulos: “Quem vocês dizem que eu sou?”, ao que Pedro, prontamente, respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, confessando, desta forma, a sua fé. Ao ouvir a resposta de Pedro, Jesus lhe afirmou: “Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi a carne e o sangue que te revelaram isto, mas meu Pai, que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”.

Depois dessa, era de se esperar que Pedro se tornasse o discípulo mais fiel e obediente a Jesus. Mas, não foi bem isso que aconteceu.

Na Ceia do Senhor, última Páscoa celebrada em vida pelo Mestre com seus discípulos, Jesus os alertou, citando o profeta Zacarias, sobre sua morte, que estava próxima, e que isso os escandalizaria. Na oportunidade, Pedro falou que Jesus nunca seria um motivo de tropeço para ele, mesmo que o fosse para todos os outros. Jesus respondeu que naquela mesma noite, antes do cantar do galo, Pedro o negaria três vezes.

Acho que, pela forma como respondeu, Pedro se sentiu ofendido. É difícil reconhecer o quão longe podemos ir em nossos pecados. Talvez ele tenha falhado em algumas coisas… Mas, negar deliberadamente o seu mestre depois de tudo o que ouvira dEle e depois de prometer que o seguiria até o fim? Isso é que não! Que tipo de homem ele seria?  Sem honra, nem palavra, nem coragem. E, assim, Pedro falou a Jesus: “Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei.”.

Depois da Ceia, Jesus foi ao Getsêmani orar e levou consigo a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu. Pediu-lhes que vigiassem para que Ele pudesse ter um momento a sós com seu Pai. E, por três vezes, Jesus se levantou e os encontrou dormindo. Dormir não é pecado. Mas, numa hora daquelas? E após Jesus ter expressado que “estava profundamente triste até à morte”? Jesus havia pedido uma coisa simples e mesmo depois de ter falado diretamente a Pedro sobre a importância da oração e da vigília, ele e os outros voltaram a dormir. Quantas vezes, apesar da clareza com que recebemos os ensinamentos de Deus, preferimos ignorar e continuar em nossa zona de conforto fazendo o que bem entendemos, mesmo sabendo que tais ensinamentos são a Verdade mais verdadeira vinda do único Deus verdadeiro.

Mais tarde, quando Jesus foi preso, Pedro, observando de longe o que acontecia, foi questionado por algumas pessoas do povo se conhecia a Jesus. Uma, duas, três vezes perguntaram e Pedro negou em todas as vezes. Disse que não conhecia o seu Resgatador. Abandonou o seu Mestre na hora mais escura. E, reconhecendo o que havia feito, chorou amargamente.

Sei que há dias em que nos sentimos como Pedro quando negou a Jesus. Idealizamos o tipo de discípulo que queremos ser e buscamos isso com todas as nossas forças. Até dizemos a Deus que “a partir dalí será diferente”. Acho que Deus nos vê lá na frente errando, e diz: “não vai ser bem assim”. Depois, Ele olha mais na frente, vê a nossa dor e, então, Ele olha bem para trás, para antes da fundação do mundo quando, sabendo que ao criar o homem, seu Filho tão amado teria que dar cada gota de sangue do seu corpo para que fôssemos libertos do pecado.

E a cada pessoa resgatada, Ele deu uma certeza fundamental.

Ah, esqueci (de propósito) de falar sobre um episódio vivido por Pedro. Depois de Jesus ter dado uma palavra dura aos que o seguiam, muitos o abandonaram. Aos doze discípulos que permaneceram, Jesus perguntou se também não queriam ir. Pedro, então, respondeu: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna.”.

Eis a certeza. Jesus, por quem são todas as coisas, é o único que pode nos dizer o que, realmente, precisamos ouvir. É aquele que nos dá a vida e o direito de sermos chamados filhos de Deus. Não é pelas coisas bonitas que dizemos a Ele, nem pelos nossos esforços em sermos bons discípulos. Mas, por acreditarmos que Ele é tudo em nós.

Jesus começou a boa obra em Pedro e a concluiu. Não pelos méritos daquele homem, mas porque o Pai o fizera conhecer o Filho, porque o Filho o remiu, e porque o Espírito Santo o guardou. E, dessa maneira, Deus continua atuando em nós por séculos e séculos.

Ele nos ama e é totalmente fiel, de modo que não inicia uma boa obra e a deixa incompleta. De forma alguma eu quero que as palavras que foram ditas aqui transmitam a ideia de que podemos continuar levando a vida que quisermos por aí que uma hora as coisas se ajeitam. Mas, quero que estas palavras cheguem aos corações dos leitores como uma mensagem de esperança, como uma boa notícia.

As coisas não estão perdidas para você que sente que entristeceu muito a Deus. Pecamos fortemente; agora, com força maior ainda, devemos e podemos nos arrepender*, pois temos a certeza de que não há lugar para onde irmos nesse mundo. Nosso lugar é aos pés de Cristo, que nos purifica e nos alimenta com suas doces palavras de vida eterna.

*em referência ao que Lutero diz na carta endereçada a Felipe Melanchthon, escrita em 1 de Agosto de 1521: “Pecca fortiter et crede fortius”.

Sterphane Castro

Sterphane Castro

Nada do que eu disser poderá me resumir em minha inconstância. Um sopro, uma onda, obra-prima totalmente dependente de Deus.
Sterphane Castro

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